“Vale da Sarvinda”: um refúgio ecológico

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O empreendimento do “Vale da Sarvinda” situa-se no concelho de Vila Velha de Rodão, em pleno Parque Natural do Tejo Internacional. A propriedade tem130 hectares, sendo que apenas 40 podem ser explorados para fins agrícolas.
O objetivo deste projeto é criar riqueza através de sistemas de produção agrícola, atividades turísticas, produzir energia e alimentos, em modo biológico, biodinâmico e respeitando os princípios da permacultura.
Na qualidade de Jovens Repórteres para o Ambiente, tivemos a oportunidade de visitar este empreendimento. O sol raiava quando chegámos ao complexo do “Vale da Sarvinda.” De modo a combater o calor abrasador que decidiu fazer-nos companhia naquele dia, antes mesmo de nos serem dadas quaisquer informações a respeito do projeto, foram-nos ofertadas bebidas bem frescas confecionadas pelos nossos anfitriões. Os limões com que foi feita a limonada ou a menta que foi colhida no jardim de ervas aromáticas e serviu para confecionar o chá gelado eram de produção própria e estavam ali “à mão de semear”. À nossa disposição estava também pão de centeio, que fora feito com a farinha produzida no próprio complexo. Quando estávamos já todos saciados e com vontade de desbravar os hectares de conhecimento que se viam adiante da nossa posição, começámos a visita.
O nosso guia começou por falar da filosofia que sustenta todo este empreendimento e das regras pelas quais se regem todos os intervenientes, que são as seguintes: aplicação dos princípios da permacultura (cuidar da terra, cuidar das pessoas e utilizar os recursos existentes de forma responsável); certificação biológica do espaço (não utilização de produtos químicos de síntese); diversificação de culturas (negócio com vista à autossuficiência); santuário de zonas selvagens; criação de espaços reservados para vegan e macrobióticos (turismo, saúde, formação e atividades); não comercialização de animais sempre que implique morte; função social (sempre que haja distribuição de dividendos pelos cooperantes, atribuição de % para função social); interação com a comunidade.
Os visitantes iam caminhando atrás do guia que continuava a explicar. “Nós queremos gerir os recursos disponíveis de forma sustentável, pois todos os sistemas têm os seus limites. Devemos conhecê-los de modo a utilizá-los bem, isto é, de forma a perpetuar as produções que deles tiramos, sem recorrer à introdução de energia nos mesmos. Por exemplo, quando introduzimos adubos, pesticidas, maquinaria intensiva num sistema com regularidade, estamos, na prática, dependentes desses fatores para que as produções sejam as esperadas. Ora, isso não satisfaz a condição de sustentável.”
Na permacultura existe uma enorme preocupação com a proteção do solo. Este é, normalmente, protegido ou coberto com matéria orgânica (pallha) de forma a ser mantido o nível de humidade e, com isso, pode diminuir-se as necessidades de rega. Também existe a preocupação de aumentar a fauna do solo – desde bactérias a minhocas – que melhoram a sua condição e os níveis de matéria orgânica total. Não se praticam mobilizações de solo, como lavrar, fresar, escarificar ou outras. Esta é uma tendência que está a ser apontada como a correta, atualmente, pelo meio académico a nível mundial.
A gestão da água é outra das grandes preocupações. “Felizmente, nesta propriedade, existe água com abundância. Ainda assim, está previsto aumentar os sistemas de reserva estratégica de água. Para uma gestão mais fácil deste recurso, é conveniente que exista declive no terreno, o que existe aqui, como podem verificar” – comentou o nosso guia.
A biodiversidade é outro pilar fundamental da prática da permacultura. Uma vez que não se utilizam químicos de síntese, é na biodiversidade que se consegue o controlo de doenças, pestes e pragas. Isto faz-se colocando espécies que atraiam predadores de pragas nocivas. Consegue-se, através da permacultura, produções de alto rendimento, com recurso a menos energia, logo menos custos a médio/longo prazo. Alcançam-se, assim, do ponto de vista agrícola, melhores produções em qualidade, mantendo níveis de produtividade elevados e com menos recursos a fatores externos ao sistema. Na construção (por exemplo as casas de apoio do futuro parque de campismo), encoraja-se a utilização de materiais naturais e locais, assim como técnicas que aproveitem a energia disponível ao máximo, seja solar, hídrica, geotérmica ou biomassa.
Como já vem sido hábito, a curiosidade levou a melhor dos Jovens Repórteres presentes em trabalho, e foi-nos dito que o “Vale da Sarvinda” se dividia em quatro áreas, todas elas com um propósito, seja ele o cultivo de alimentos para abastecer as cozinhas que alimentavam os trabalhadores, seja para construir uma barragem ou até mesmo, levando os padrões do empreendedorismo mais além, utilizar o conceito de glaming no parque de campismo que será brevemente inaugurado. Perante tal conceito, os Jovens Repórteres ficaram confusos. Glaming? Mas em que consiste? Sempre com um sorriso na sua face e disposto a esclarecer até à mais pequenina dúvida, fosse nossa ou de quem nos acompanhou no passeio, foi-nos explicado cuidadosamente que o glaming consistia em acampar com glamour (glaming= camping+glamour). Inovando uma vez mais, este conceito aplicado no “Vale da Sarvinda” pretende oferecer àqueles que optem por escolher o parque de campismo como alojamento, uma experiência
Algo que também nos espantou foi saber que meras plantas que nós ignoramos diariamente ou mesmo até maltratamos, podem ser usadas em cosmética, um outro ramo onde o fundador do projeto, Frederico Abreu, pretende investir.
O nosso guia diz-nos que “aqui, encaramos o ambiente como uma oportunidade, queremos desenvolver atividades comerciais sustentáveis. Acima de tudo, queremos mostrar o que entendemos por educação ambiental. O próprio espaço será um exemplo disso mesmo, pois proporciona atividades ao ar livre em comunhão com a natureza; cultivo sem químicos; tratamento de todos os resíduos produzidos; e alternativas energéticas naturais”.
Mas, como o tempo é um bem essencial procurado por todos e almejado por aqueles que não o têm, a nossa visita chegou abruptamente ao fim, dado que os horários eram apertados. Os Jovens Repórteres adoraram a visita, e ficaram inebriados no espírito de empreendedor mostrado no decurso de todo o passeio.

Bianca Almeida e João Barateiro – Jovens Repórteres para o Ambiente de Vila Velha de Ródão

 

Alunos envolvidos no projeto: Bianca Almeida; João Barateiro

Escola: Escola EB 2,3 de Vila Velha de Ródão – Agrup.

Data: 19.06.2015

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