O semáforo do ruído

Uma estranha geringonça colocada na parede do refeitório da Educação Pré-Escolar do Colégio dos Plátanos está a mudar o ambiente daquele espaço. O ruído tem os dias contados…

Façamos como nos filmes e voltemos um pouco atrás para explicar o que aconteceu afinal. Os pequeninos, ao entraram no refeitório, a falar alto como de costume, viram um objeto estranho na parede. O que seria? Grande, com a cara de uma pessoa desenhada, ligado à eletricidade e dava luzes entre o verde, amarelo e o vermelho.

Curiosos, dispararam com as perguntas para as educadoras. “É um ruidómetro, um aparelho de medir o barulho”, explicaram. Os meninos nem queriam acreditar que tal seria possível! Então não é que aquela coisa estranha estava ali por causa deles, ou melhor, por causa do barulho que todos já sabiam que faziam àquela hora! É normal. Afinal, só têm cinco anos.

Foi aliás por serem os mais novos, que foi o seu refeitório o escolhido para instalar este protótipo, desenvolvido na íntegra no Colégio dos Plátanos. Por serem menos resistentes à mudança, ou por outras palavras, por serem mais fáceis de moldar.

As crianças ficaram então a perceber como funciona a geringonça: se falassem muito alto, as luzes do painel ficavam vermelhas e isso significava que podiam ficar com dor de cabeça, ou até pior! O ideal era as luzes estarem sempre verdes e eles falarem baixinho, como se estivessem a dizer segredos. Os pequenos sentaram-se então com o máximo dos cuidados, para não provocarem som ao arrastar as cadeiras. Reinava o sossego no refeitório, que maravilha!

Os miúdos ficavam fascinados a olhar para as luzes verdes do painel, falavam o mais baixo possível! Alguns estavam tão fixos a olhar para o painel que até se esqueciam de comer. O primeiro descuido foi dos adultos. Alguém deixar a cair um garfo! As luzes do painel mudaram por um momento para amarelo! Viraram-se todos para o responsável com um olhar de censura estampado no rosto. Ouviu-se algures um “chiuuuuu” muito indignado. Felizmente, as luzes voltaram ao verde e uma atmosfera de contentamento espalhou-se de novo pela sala.

Aspeto do “ruidómetro” no refeitório dos pequeninos

Problemas

A novidade não apanhou só os pequenos de surpresa. Os adultos que entravam no refeitório nos dias que se seguiram à instalação do painel estranhavam a falta do burburinho habitual. Algo de errado tinha que se estar a passar… Mas não. São só os pequeninos a aprenderem a lidar com um problema grave chama do ruído, e que segundo a pediatra Ana Paula Lucas tem efeitos que “podem manifestar-se por perturbações de audição (como ouvir mal e por perturbações psicológica) pelo aumento do stress e conflitos entre os jovens, por perturbações do sono (dificuldade em adormecer, sono superficial, acordar muitas vezes durante a noite)”. Tudo isto, continua, “resulta em perturbações de aprendizagem por que a memória e a concentração se reduzem, dado que o jovem fica mais sonolento durante o dia”.

Uma criança ou jovem exposto ao ruído pode vir a ter problemas de aprendizagem

A construção e instalação do “ruidómetro” fez-se no sentido de construir algo que eduque os mais jovens para o futuro.

Mas a luta contra o inimigo que é o ruído não se deve passar só na escola. É necessário tomar medidas noutros lugares, começando em casa. Conselho da especialista: “Se cada um fizer a sua parte, já conseguimos alguma coisa”.

 

Mudanças

Não é difícil. E mudar a realidade do ruído está ao alcance de todos. Senão veja-se. Primeiro, se estivermos num ambiente de ruído, obrigarmo-nos a falar mais baixo, com o objetivo de que todos também baixem o tom de voz. Segundo, não ouvir música alta nos fones. Se virmos que alguém o está a fazer, chamarmos a atenção. Terceiro, quando for mesmo necessário falar mais alto, procurar espaços abertos ou exteriores, para reduzir os danos provocados pelo ruído. Por último, não podemos esquecer que somos cidadãos e como tal todos temos responsabilidades, incluindo o dever de não utilizar o volume dos equipamentos eletrónicos no máximo, da mesma maneira que não andamos a 200km/h num carro que consiga chegar lá.

Verde, amarelo ou vermelho

O professor Pedro Pereira explica como construiu o “ruidómetro”.

Visto de fora, o ruidómetro é um quadro onde foi colocado o perfil de uma “pessoa”, ligado a uma fita LED que, consoante o ruído existente, emite as três cores: verde, amarelo ou vermelho. Lá dentro, é constituído por componentes eletrónicos que foram soldados na placa e ligados à fita LED. “Foi programado para conseguir ler informaticamente a informação do ruído e depois mostrar os alertas” explica Pedro Pereira, professor de Robótica do Colégio dos Plátanos. Outro dos desafios foi compreender os valores limite entre o ruído “ideal”, “aceitável” e “péssimo”. “Não fazia ideia nenhuma”, confessa. Surgiu então o próximo desafio, já que existem vários níveis de ruído. Uma aplicação de telemóvel, com vários patamares de ruído deu uma ajuda, mas não resolveu o problema.

Isto porque a “captação de valores é instantânea e não fazia muito sentido, que a cada medição destas, a cor das lâmpadas mudasse”, prossegue. Pedro Pereira fez então o seguinte: “A cada cem leituras, ou seja a cada dez segundos, o aparelho faz uma média e de acordo com essa média eu impunha limites. Depois, de acordo com esses limites, a fita ficava verde, amarela ou vermelha”.

Ruído, um problema de saúde pública

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, ruídos constantes acima de 55 decibéis durante o dia e 40 decibéis durante a noite são nocivos, tendo várias consequências como um pior desempenho na escola e trabalho, deficiência auditiva, stress, irritação e perturbação do sono, hipertensão, transtornos respiratórios e neurológicos (vertabela). Vários estudos realizados por especialistas em todo o mundo apontam para a necessidade urgente em alertar a sociedade, especialmente os profissionais de saúde, sobre os efeitos prejudiciais decorrentes do ruído. Por exemplo, a elaboração de programas educativos e de medidas preventivas para a fiscalização dos níveis de ruído ambiental.

 

Níveis de decibéis

Efeitos do ruído

 

Alunos envolvidos no projeto: Catarina Sousa; Catarina Dias; Eduardo Vaz Gonçalves; João Pinheiro ; Nuno Calaim

Escola: Colégio dos Plátanos

Data: 16.05.2017

Partilha esta reportagem em