Poluição luminosa apaga o pirilampo

O pirilampo é um inseto conhecido, mas a sua observação está a tornar-se rara. Os entomólogos têm demonstrado pouco interesse neste inseto, que se encontra ameaçado pela poluição luminosa. Tradicionalmente conhecidos como vaga-lume, estes caminham para a lista de animais em risco de extinção por motivos que precisam de reflexão.


O pirilampo, ao longo dos tempos, foi adquirindo uma reputação carismática entre as pessoas  e fez parte do imaginário da infância da Geração dos Millennials,pela sua peculiaridade, a capacidade de conseguirem emitir luz. Nos recantos da penumbra, conseguíamos avistar uma luz intermitente e estes encontros mágicos mergulhavam-nos num momento de fantasia, no qual podíamos segurar este maravilhoso inseto, que emite uma  luz que não queima sendo esta uma das luzes mais frias da Terra.

O Pirilampo Ibérico (Lampyris iberica) sofreu uma extinção local devido à introdução de luz artificial no locais onde a espécie existe.// Diogo Martins

 Existem cerca de 2000 espécies conhecidas em todo o mundo, em Portugal, onde recentemente foram descobertas nove espécies, existe maior presença no Norte e Centro, no entanto, é possível observá-los em quase todo o território português. No estudo “A Global Perspective on Firefly Extinction Threats”, publicado na revista Bioscience, os autores referem, que os 49 especialistas consultados foram unânimes, relativamente à perda de habitat na Europa, associada à urbanização dos terrenos, à industrialização e à intensificação da agricultura e  ao  uso de pesticidas, que são a principal ameaça às espécies distintas de pirilampos. A segunda maior ameaça, apontado pelos especialistas, foi  a iluminação noturna presente na sociedade moderna. 

Os pirilampos, quem são?

Os pirilampos são insetos coleópteros e pertencem às famílias Elateridae, Phengodidae ou Lampyridae, alimentam-se de vegetais, mas também de  caracóis e outros vermes, por vezes, adotam hábitos terrícolas, tendo uma dieta de raízes e base de caule de plantas quando em fase larvar. Estes conhecidos insetos são bioluminescentes e possuem dois pontos luminosos sob as faces ventral e dorsal do último segmento do corpo, tanto os pirilampos adultos como as larvas.

A luz bioluminescente emitida pela lanterna destes insetos é claramente perceptível numa noite sem fotopoluição.// Diogo Martins

Esta característica é essencial à reprodução do ser vivo, já que as fêmeas pirilampo são desprovidas de asas o que limita a sua locomoção, sendo os machos que encontram as fêmeas para o acasalamento. Dependem da sua capacidade de brilhar para encontrar e atrair parceiros. Os machos são seduzidos pela luz emitida pela fêmea, voando ao seu encontro, podendo iniciar mais um ciclo reprodutivo. A sua fase de reprodução é curta, pois um adulto só vive poucos dias, criando um espaço temporal de reprodução extremamente curto e vital para a sobrevivência da espécie. Avalon Owens,  no estudo publicado pela Bioscience, refere que “Além de interromper os biorritmos naturais, a poluição luminosa realmente atrapalha os rituais de acasalamento dos pirilampos”. A continuidade desta espécie e dos  respectivos descendentes está atualmente a ser posta em risco e uma das principais causas deste fenómeno é a poluição luminosa, que põe em causa a “paixão luminosa” destes tímidos insetos, que na época de reprodução estão tão focados em busca da luz da parceira que chegam a deixar de se alimentar.

Efeitos da poluição luminosa

Como seria de esperar a fotopoluição prejudica animais e plantas, que alteram os seus comportamentos naturais e, por exemplo, no caso do pirilampo a sua luminescência é apagada pelas luzes artificiais afetando a sua reprodução de forma drástica. Para além disso, nesta  lista de hábitos naturais alterados podemos encontrar a alimentação, o descanso e até mesmo a proteção contra predadores. Este fenómeno pode ter um enorme impacto na biodiversidade, causando uma quebra no equilíbrio do planeta trazendo repercussões inquantificáveis para a humanidade.     

Para além deste efeito nefasto, o excesso de luz artificial noturna interfere na visão da abóbada celeste dificultando os estudos astronómicos e simples observações feitas pelas pessoas, retirando a perceção dos corpos celestes. O céu estrelado é um património cultural com que a humanidade foi presenteada, e está a desvanecer lentamente, ocorrendo uma degradação das condições naturais luminosas do céu noturno, de forma contínua. Esta situação retira o direito de várias gerações a essa herança tão preciosa.

Os seres humanos não estão excluídos de sofrerem diretamente com este tipo de poluição. Como a luz é um sincronizador forte do ritmo circadiano, a exposição constante à luz brilhante, ou seja, luz do dia ou luz artificial, com intensidade entre os 5000 e os 10000 lux, pode causar distúrbios gastrointestinais, cardiovasculares e até disfunções sócio-familiares. Ficar exposto à iluminação artificial durante a noite pode afetar o relógio biológico, que fica desregulado levando a um descontrole de algumas funções do nosso corpo. Esta situação mostra que iluminar a noite altera comportamentos e ciclos de vida e, segundo a neurocientista Tracy Bedrosian, existe uma relação entre exposição luminosa noturna e depressão, porque o ritmo circadiano fica desregulado, desencadeando desordens a nível do humor, problemas metabólicos e certos tipos de cancro.

A mitigação dos impactos da poluição luminosa

Esta problemática tem vindo a ser cada vez mais divulgada e discutida nos últimos anos paralelamente  às suas consequências que são cada vez  mais perceptíveis. Tendo este facto em consideração, algumas soluções começaram a surgir no meios urbanos, podendo destacar-se a principal mudança, aplicada  à iluminação pública. Procurou-se otimizar a iluminação pública, ao nível do consumo de energia, da área e do ajuste da potência. Uma importante medida, que irá evitar uma maior fotopoluição, é que os candeeiros ou projetores devem refletir a luz que emitem somente para baixo não para os lados ou para cima. Para além destas medidas, várias associações têm apoiado a mitigação da poluição luminosa visando amenizar as suas consequências. São frequentemente promovidos eventos e outras  atividades que com o objetivo de  instruir a população sobre este tipo de poluição inexplorada e os seus graves danos. O Parque Biológico de Gaia é o  exemplo de uma instituição que procura trazer “à luz da ribalta”  os luminosos insetos, promovendo eventos como o Simpósio Internacional sobre Pirilampos, que irá ocorrer em 16 junho de 2021, que promove a preservação do pirilampo, entre  outros eventos.  Uma outra organização que procura sensibilizar sobre esta problemática é o projeto internacional Dark Skies Rangers, que pretende combater o problema da poluição luminosa, através da sensibilização da comunidade educativa e das autoridades locais para alterarem os sistemas de iluminação e preservarem o céu noturno. A importância em diminuir a fotopoluição vai, como observamos, para além do ser humano já que   também afeta a biodiversidade. É urgente preservar um bem essencial para os ecossistemas deste planeta.

Fontes:

https://parquebiologico.pt/

https://www.sciencealert.com/we-re-pushing-fireflies-towards-extinction-by-drowning-them-in-light

https://www.dn.pt/arquivo/2008/uma-pequena-luz-na-noite-1128365.html

 

Alunos envolvidos no projeto: Diogo Martins

Data: 14.06.2020

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