Pandemias: há razões para entrar em pânico?

A palavra pandemia teve origem no grego pan, que significa “todos” e demos “as pessoas”, e é uma palavra normalmente usada para se referir a uma epidemia, ou seja, uma doença contagiosa, mas que acabou por se espalhar por vários países ou continentes.

Ao longo da história, a humanidade já presenciou diversas epidemias desde da Peste Negra, à Cólera, à Gripe Espanhola, ao HIV entre muitas outras e acabando no mais recente, o coronavírus. Todas elas, além de provocarem consequências debilitantes e às vezes fatais para aqueles que foram diretamente afetados, também podem provocar diversas consequências negativas ao nível socioeconómico e político. Qiu et al., no estudo “The Pandemic and its Impacts”, publicado em 2017 no jornal “Health, Culture and Society”, referem que em 2009, o impacto da gripe pandémica, o H1N1, não foi apenas relativo à mortalidade, mas também sobre os sistemas de saúde, a saúde animal, a agricultura, a educação, os transportes, o turismo e o setor financeiro. Outro exemplo, o SARS em 2003 e as pandemias de Ébola, em 2013 e 2015, respetivamente, perturbaram as economias e a ordem social na China e na África Ocidente, além dos doentes e mortos que causaram.

Taubenberger e Morens (2006), no seu trabalho intitulado “1918 Influenza: the mother of all pandemics”, referem ter sido a gripe espanhola (influenza) entre 1918 e 1919, uma das maiores pandemias que já existiu, infetando cerca 500 milhões de pessoas, um terço da população mundial, causando cerca de 50 milhões de mortes em todo o mundo. O impacto daquela pandemia vai muito além para lá do espaço de tempo em que se registaram os 500 milhões de casos, porquanto muitos dos vírus hoje descendem do vírus de 1918, tais como o H1N1, H2N2 e o H3N2. É por esse motivo que o vírus da influenza é conhecido por ser “a mãe” de todas as pandemias. Pesquisas posteriores indicaram que a descendência do vírus de 1918 ainda existe nos suínos e provavelmente também circulou durante muito tempo em humanos, sendo responsável por epidemias até 1950. Com o aparecimento da pandemia do vírus H2N2 em 1957 (gripe asiática), a descendência do vírus desapareceu dos humanos, tendo reaparecido em 1977 e continuando a circular de forma endémica e epidémica.

Em 1918 na primeira vez que os EUA entraram em contacto com o vírus influenza, muitos jornais não imprimiram listas dos mortos e comparam a doença a uma “gripe normal” dizendo inclusive que causava “a mesma febre e arrepios de sempre”. Esta estratégia de comunicação, quer de tranquilização quer de silêncio, teve o seu efeito devastador.

De acordo com John Barry, e conforme se pode ler no seu artigo publicado na Nature em 2006 (“Pandemics: avoiding the mistakes of 1918”), naquela ocasião, a mentira e o silêncio custaram a credibilidade e a confiança às autoridades. Sem um funcionário público em quem confiar, as pessoas sentiam-se perdidas e acreditavam em qualquer rumor ou imagens. Em Washington alguém descrevia a situação, dando conta de que “as pessoas tinham medo de se beijar, de comer umas com as outras… destruíram-se esses contactos e destruiu-se a intimidade que existia entre as pessoas… havia um clima de medo constante desde manhã ao levantar até ir para a cama à noite”. Noutros lugares, o medo, não a doença, mantinha as pessoas em casa. Os merceeiros recusaram-se a abrir. Os vendedores de carvão fecharam. Nas cidades e comunidades rurais, a Cruz Vermelha relatou que as pessoas “estavam a morrer à fome, não por falta de alimentos, mas porque as pessoas saudáveis tinham demasiado medo para levar comida aos doentes”. Entretanto, os corpos amontoaram-se. Em muitas cidades, ficaram dias sem serem recolhidos em casa, o que apresentava outro problema por si só, pois os cadáveres também constituem uma forma de transmissão do vírus e de outras doenças que afetavam gravemente a qualidade da vida humana e do ambiente em que estes viviam. A falta de informação mais uma vez agravava o problema.

Para Sixto J. Incháustegui, dizer a verdade ao público é primordial. O registo histórico demonstra que, perante uma pandemia devastadora, muitas nações, comunidades e indivíduos adotam o que consideram ser medidas de distanciamento social ou intervenções não-farmacêuticas eficazes, incluindo o isolamento dos doentes, a colocação em quarentena dos suspeitos de terem contacto com os doentes, o encerramento de escolas e empresas selecionadas e o cancelamento de reuniões públicas. O cumprimento em grande escala e sustentado será essencial para que essas medidas sejam bem-sucedidas. O cumprimento exige confiança, o que depende da verdade.

Figura 1. Intervenções de base comunitária. Legenda da figura: (#1) atrasar o pico do surto; (#2) descomprimir os picos de carga nos hospitais/infraestruturas; (#3) diminuir os casos globais e os impactos na saúde (adaptado de Markel H, Lipman HB, Navarro JA, et al. Nonpharmaceutical Interventions Implemented by US Cities During the 1918-1919 Influenza Pandemic. JAMA. 2007).

Cada crise, calamidade ou, neste caso, pandemia, afeta principalmente os seres humanos. Contudo, o ambiente é também afetado por estes acontecimentos e pelas medidas tomadas pelos governos.

Posto isto, é importante reconhecer-se a relevância da transparência e comunicação durante uma crise desta natureza, em que o conhecimento é a chave para a proteção de todos e assegura que se consiga manter, dentro dos possíveis, a qualidade de vida e a proteção do ambiente em que se vive.