Horta urbana

O campo na cidade.

Está em Lisboa, em Marvila, a maior horta urbana de Portugal.

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Em Chelas, na freguesia de Marvila, concelho de Lisboa, está o maior espaço urbano do país para albergar hortas. Era uma zona abandonada até 2011. Hoje, a sua remodelação desempenha um importante papel pedagógico, assim como contribui para uma maior sustentabilidade ambiental da cidade de Lisboa.

O grande crescimento do espaço edificado na cidade, iniciado na era posterior à Revolução Industrial um pouco por toda a Europa (e em Portugal, sobretudo a partir da década de 60 do século passado), tem vindo a provocar um aumento de poluição e destruição de recursos naturais, a qual está associada a uma diminuição da qualidade de vida. Esta cidade contemporânea tem vindo a ocupar e edificar os espaços que outrora eram rurais, ignorando quase sempre os valores ecológicos e culturais dos lugares que ocupa.

Finda a primeira década do século XXI pode dizer-se que a humanidade se tornou uma espécie predominantemente urbana. A população humana conta com mais de 7 mil milhões de pessoas e cerca de uma em cada duas vive em cidades (em aproximadamente 35 anos, duas entre três o farão)[1].

A cidade, cresceu de forma artificial e é o habitat natural da espécie Humana, o que implica que esta tenha de encontrar novos parâmetros e uma nova definição para a sua relação com o meio ambiente. Admitindo este habitat como ponto de concentração populacional e económico, facilmente compreendemos que é também onde são mais elevados os níveis de consumo pessoal, que se refletem posteriormente em grandes níveis de consumo coletivo.

Mas os impactes ambientais de uma humanidade em urbanização são uma grande causa de preocupação. Para além do monopólio associado aos combustíveis fósseis, metais e betão, esta humanidade urbanizada consome também quase metade da capacidade fotossintética da Natureza. O impacte humano nos ecossistemas e paisagens, atualmente referido por Pegada Ecológica, é um conceito que deve ser considerado no planeamento urbano das cidades contemporâneas, dado ser fundamental controlar a superfície ambiental necessária à produção de bens e serviços indispensáveis ao suporte dos ciclos de vida natural e humana e compatibilizá-los com os estilos de vida que adotamos[2].

A existência de espaços verdes nas cidades contribui para uma melhoria da qualidade do ar através do aumento da produção de oxigénio.

Estes espaços podem ser assegurados de várias formas, entre as quais são de destacar os telhados verdes e as hortas urbanas, as quais não só permitem a prática de uma agricultura urbana, bem como podem desempenhar funções sociais a nível local.

A importância da agricultura urbana para a sustentabilidade das cidades e das suas populações só foi reconhecida recentemente por parte de corpos nacionais e internacionais. Hoje estima-se que esta atividade envolve cerca de 800 milhões de pessoas em todo o mundo[3].

A definição de agricultura urbana admitida pela FAO[4] (Food and Agriculture Organization of the United Nations) refere que a agricultura urbana estará associada a atividades de produção alimentar ou criação de animais, dentro dos limites da cidade. Os espaços que ocupa competem por recursos – solo, água, energia, mão-de-obra – também necessários a outras funções urbanas. A agricultura urbana acontece em pequenos espaços intra-urbanos, como baldios, lotes vazios, jardins, varandas, quintais ou outros tipos de recetáculo, os quais são utilizados como local de produção para consumo próprio ou venda em mercados locais.

A sustentabilidade social liga-se à agricultura urbana no sentido desta ser uma atividade que promove o sentido de comunidade, bem como o seu entrosamento na sociedade urbana mais alargada.

É neste contexto que a Câmara Municipal de Lisboa decidiu nos últimos anos intervir em vários locais da cidade. Em Chelas, na freguesia de Marvila, concelho de Lisboa, está o maior espaço urbano do país para albergar hortas. São 4,5 hectares de horta no Vale de Chelas, em Marvila, que está repartida em 300 talhões para cultivo, cada um com 160 metros quadrados.

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Esta enorme horta urbana está englobada no Parque Hortícola do Vale de Chelas, uma estrutura multifacetada constituída por outras zonas verdes e equipamentos para os mais novos[5].

O Vale de Chelas era, até, 2011, na sua maioria uma zona abandonada e pouco cuidada. A sua remodelação traduz-se num fator de valorização paisagística e ambiental pela organização espacial de áreas de uso indefinido, na sua maioria degradadas, que não teriam quaisquer ocupações.

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Aspeto geral do Vale de Chelas até 2011. (Adaptado de http://www.icaam.uevora.pt/content/download/2372/12826/version/1/file/Hortas+urbanas+na+cidade+de+Lisboa+-+MJFundevilla.pdf).

Além disso, estas hortas desempenham um importante papel pedagógico contribuindo para uma maior sensibilidade ambiental de todos os envolvidos. É evidente o entusiasmo dos alunos do 1º ciclo do Colégio Valsassina que todas as semanas se deslocam ao seu talhão, anexo à sua escola, para regar ou plantar.

Este sentimento é partilhado pelo Sr. Simão que afirma “Gostar da terra. Fui criado numa zona agrícola e gosto muito disto!, apesar de nem sempre ser fácil, a terra aqui é muito dura…”.

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Horta dos alunos do Colégio Valsassina. Alunos do 1º ciclo em trabalho na horta urbana do Vale de Chelas.

As hortas criadas contribuem para uma maior sustentabilidade ambiental da cidade a vários níveis, nomeadamente: mantendo ecossistemas ainda existentes; melhorando a qualidade dos solos por práticas de correção orgânica e mobilizações culturais adequadas; permitindo o correto aproveitamento das águas do solo. José Clemente, de 56 anos, morador em Chelas, realça que “é necessário e importante aproveitar a água das chuvas.”.

Estas hortas contribuem ainda para o abastecimento em produtos frescos dos centros urbanos e assumem-se como um fator de valorização cultural, pela sensibilização geral da população às vantagens nutricionais e económicas da agricultura biológica, assim como aos sistemas de produção artesanais, aproximando as populações citadinas ao espaço rural.

Entre os espaços verdes que apresentam maiores valores de riqueza biológica encontram-se as hortas urbanas, as quais atuam favoravelmente no meio físico das cidades e sobre a saúde física e mental dos seus habitantes, sendo tão indispensáveis quanto mais urbanizadas forem as área onde se inserem. As hortas urbanas representam assim espaços verdes e espaços de agricultura urbana com elevado valor ambiental, económico e social, sendo fundamental a sua integração no desenvolvimento sustentável das cidades.

 

Colégio Valsassina

Escalão 11-14

 


[1] http://www.un.cv/files/PT-SWOP11-WEB.pdf. Consultado em 16 de maio de 2014.

[2] Ramos, A. (2011). A integração de espaços de cultivo agrícola em contextos urbanos. Dissertação para a obtenção do grau de mestre em Arquitetura. IST. 2011

[3] http://www.24horasnewspaper.com/fotonews/2434/pdf/Pagina%2008%20-%20Estados%20Unidos.pdf. Consultado em 18 de maio de 2014

[4] http://www.ruaf.org/sites/default/files/AU1conceito.pdf. Consultado em 18 de maio de 2014.

[5] http://greensavers.sapo.mz/2012/02/24/lisboa-vai-ter-horta-de-45-hectares-no-vale-de-chelas-sera-a-maior-horta-urbana-de-portugal/. Consultado em 18 de maio de 2014.