O herbicida mais utilizado a nível mundial e em Portugal é o glifosato. Segundo o jornal francês Le Monde, está presente “em cerca de 750 produtos comercializados por uma centena de empresas em mais de 130 países”


Em 2015, o mesmo foi classificado como “carcinogéneo provável para o ser humano e carcinogéneo provado para animais de laboratório” pela IARC – International Agency for Research on Cancer, órgão da Organização Mundial de Saúde. Não obstante, a 27 de novembro de 2017, a licença do uso do glifosato foi renovada por mais cinco anos na União Europeia, votação na qual Portugal se absteve.

Ainda no ano passado, a multinacional Monsanto, comercializadora do RoundUp, cujo ingrediente ativo é o glifosato, foi acusada de omissão de dados relativamente à inocuidade e biodegradabilidade do herbicida, tendo sido revelado documentos, pelo departamento de justiça norte americana, que comprovam o conhecimento por parte da empresa da perigosidade do mesmo desde 1999. Contudo, a Monsanto continua a criticar as motivações e limitações do estudo da IARC.

Com o intuito de averiguar o grau de urgência da proibição do glifosato em Portugal e o escândalo relativo à multinacional Monsanto, entrevistou-se duas personalidades com atividade notável a nível ambiental.

Mário Carvalho, professor no Departamento de Fitotecnia na Universidade de Évora, inicia a entrevista por acentuar o facto de o controlo dos infestantes ser indispensável para a produção de alimentos, sendo a mobilização do solo e o uso de herbicidas duas formas fundamentais de obter este controlo. No entanto, “A mobilização do solo acarreta consequências ambientais, entre as quais a perda de solo por erosão e a degradação do seu teor em matéria orgânica”. Deste modo, a proibição da utilização de herbicidas, como o glifosato, conduzirá ao inevitável aumento da intensidade da mobilização do solo, o que, por sua vez, agravará todas aquelas consequências. É de realçar que a excessiva mobilização do solo é um problema que se tem vindo a intensificar em Portugal.

Quando questionado até que ponto o cidadão comum deve estar preocupado com a prevalência da utilização do glifosato, o entrevistado reconhece que o problema deriva do abuso do herbicida, nomeadamente do seu “uso em contexto não agrícola, como os passeios das cidades ou ao longo de estradas, e em culturas geneticamente modificadas resistentes ao mesmo, tarefa para a qual se recorrem a quantidades muito mais elevadas para matar os infestantes”. Todavia, ressalva que, na Europa, esta última variedade do herbicida está proibida.

Por outro lado, colocada a mesma questão, Margarida Silva, Professora na Escola Superior de Biotecnologia na Universidade Católica do Porto, evidencia que, apesar do glifosato não ser o único pesticida “que desequilibra o ambiente e nos causa múltiplas doenças, é daqueles em que já há conhecimento científico suficiente para justificar uma proibição definitiva do seu uso”, o que está de acordo com a sua classificação como o herbicida mais estudado pela comunidade científica. “E é por isso, porque o glifosato continua a ser usado, apesar de ser venenoso, que há razão para as pessoas se preocuparem”, remetendo a entrevistada para “análises que mostram que é abundante no ar, solo, chuva, água de consumo, bebidas, muitos tipos de alimentos e até leite materno e urina humana.”

É de notar que, em 2016, análises da urina de 26 voluntários portugueses revelaram a presença de glifosato em todas as amostras. Ademais, a entrevistada assegura que “Os portugueses, tanto quanto se sabe, são as pessoas mais contaminadas por glifosato na Europa – vinte vezes mais que os alemães, por exemplo. A proibição em Portugal já devia ter vindo há muito tempo”.

Em relação ao predomínio do uso do glifosato, o investigador do ICAAM – Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas -, justifica a sua popularidade, por ser o único herbicida total, ou seja, mata a generalidade das plantas e não é residual: após a sua aplicação pode semear-se qualquer cultura e evitar a mobilização do solo.

Sob outro ponto de vista, a doutorada em Biologia Molecular, acusa a cultura dos transgénicos como causa maior da prevalência do glifosato, já que “no seu conjunto, os transgénicos absorvem 56% de todo o glifosato consumido anualmente a nível mundial”, sendo que 72% do total de glifosato aplicado mundialmente nos últimos 40 anos foi aplicado na última década”.

Além disso, e tendo como ponto de partida o plano de redução do uso de pesticidas, em vigor no país, declara que “na prática há medo de obrigar os agricultores a cortar nos químicos.” Por isso, os avanços são reduzidos e para já, “só os cidadãos podem travar o glifosato ao forçar as câmaras a mudar para meios não químicos de limpeza de ruas e, sempre que possível, o ideal é comprar alimentos biológicos.”

Confrontado com a polémica da Monsanto, Mário Carvalho realça a inevitabilidade dos interesses comerciais por parte de qualquer produto independentemente dos efeitos nocivos ou secundários a nível humano e/ou ambiental e acredita que “existe um grande envolvimento ideológico na discussão do glifosato. Muita da informação que aparece como independente a denegri-lo não é séria do ponto de vista científico, o que não significa que este seja inócuo para o ambiente”. Todavia, “há um grande saldo a favor das vantagens.”

Numa outra perspetiva, Margarida Silva alega que “Historicamente  a Monsanto tem uma cultura de mentira e corrupção.”, relembrando a defraudação nas conclusões de um estudo, na década de 70 do século passado, relativo à poluição altamente tóxica de um rio no Alabama, devido à presença do químico PCB, usado na indústria elétrica e comercializado pela empresa. Acrescenta que “Quanto ao glifosato  a Monsanto fez tudo o que estava ao seu alcance – legal ou ilegal, justo ou injusto – para impedir que o glifosato fosse proibido, o que passou também por manipular a ciência em toda a linha.”, concluindo “Os interesses comerciais são a única razão para a Monsanto defender o glifosato. Afinal, em 2015, os herbicidas à base de glifosato renderam mais de mil milhões em lucros, só à Monsanto.”

A Professora entrevistada salienta igualmente o exemplo de França, que anunciou que vai preparar os seus agricultores para abandonar o uso glifosato antes de 2022. “Se uma das maiores potências agrícolas europeias pode passar sem glifosato, nós também podemos. A nossa saúde é que já não pode passar sem a sua proibição.”

O uso do glifosato permanece um tema controverso, estando ainda em aberto, o processo de análise cuidada e fundamentada dos factos por órgãos da justiça, que permitirá o apuramento da verdade. Contudo, cada um de nós, enquanto cidadãos ativos com sentido crítico, deve desenvolver a sua opinião. Assim se justifica a inclusão neste artigo de duas posições distintas, que, decerto, contribuirão para a formação de juízos justificados e para a reflexão sobre as possíveis consequências que o desenvolvimento industrial e tecnológico acarreta para o ambiente e para o próprio Homem.

 

Agradece-se à Professora Doutora Margarida Silva e ao Professor Doutor Mário Carvalho pela disponibilidade e amabilidade em responder às questões que lhes foram colocadas para a realização deste artigo.

 

 

Alunos envolvidos no projeto: Maria Carreira

Data: 15.01.2018

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