FicaVouga – um EcoEvento

Entre os dias 31 de julho e 4 de agosto, realizou-se mais uma edição da FicaVouga, em Sever do Vouga, que, nas palavras do presidente da câmara António Coutinho, aquando da inauguração do evento, é uma “atividade cultural forte e bastante vincada” no concelho e na região. Este evento, que contou com cerca de 50 mil visitantes, traz ao concelho nomes maiores da música nacional, dinamizando este que é um território de baixa densidade populacional. Poucos dias antes da abertura da FicaVouga veio a público que esta tinha sido classificada pelo segundo ano consecutivo como EcoEvento pela ERSUC – Resíduos Sólidos do Centro, Lda., chancela que certifica um compromisso do município que “visa reduzir o impacto ambiental resultante do evento, através da gestão adequada de resíduos”.

Em entrevista, António Coutinho sublinhou que a chancela não é mais do que aplicar conceitos tão básicos e tão fundamentais como a separação e recolha seletiva dos resíduos sólidos gerados, que posteriormente são transportados e triados pela ERSUC, conforme protocolo existente entre as duas partes.

 

Para além desta componente mais efetiva que é o encaminhamento dos resíduos sólidos, a certificação exige ainda que sejam dinamizadas ações de sensibilização ambiental e que haja implementação efetiva de “boas práticas ambientais no local onde se realiza, com preocupações evidenciadas quanto à utilização da água, da energia, do solo, do ar ou outras”.

O projeto “Deixa a tua Marca” deste ano, dinamizado pela empresa AMH consulting ao longo das últimas edições e que parte da ideia real e coletiva de que todos nós deixamos uma marca no mundo, remeteu para a marca que deixamos em termos ambientais. Este projeto, inserido na programação oficial, acabou por ser a resposta da organização a uma das exigências da ERSUC e na voz de alguns dos participantes “excedeu as expectativas”. Através de palestras, conversas e jogos, os participantes da atividade puderam perceber que todas as atividades humanas acabam por ter alguma repercussão no meio ambiente. As responsáveis pela dinamização de uma das atividades foram algumas estudantes do departamento de Biologia da Universidade de Aveiro que deram um pouco do seu testemunho sobre o papel do biólogo na educação para a ciência e educação ambiental, destacando algumas das funções que estes profissionais têm na conservação e preservação animal e vegetal. Por outro lado, também foi dado a conhecer o “lado oculto” do trabalho de beneficiação ambiental, que é feito nos laboratórios universitários. Ainda incluído neste projeto esteve também uma palestra/testemunho da proprietária da loja biológica Raízes, uma das poucas da região. Isabel Tavares deu conta aos participantes da mudança que se operou na sua vida, quando tomou verdadeira consciência do impacto que os nossos estilos de vida têm num planeta cada vez mais fragilizado por tantas “mutilações diárias que lhe são desferidas”.

 

 

Contudo, toda a credibilidade que parecia conferida pela gestão rigorosa de resíduos e pela componente de educação ambiental acabou fortemente abalada pela inclusão, em pé de igualdade com as demais atividades, de um momento de FreeStyle. O show incluiu, passo a expressão, “queimar pneu”, foco de contaminação evidente do ar, demonstrando uma clara incongruência nas atividades propostas no evento.

 

 

Para além disso, fez-se sentir a falta de copos reutilizáveis e/ou de outros componentes que não plástico, existindo apenas alguns estabelecimentos a disponibilizar copos “recicláveis”. Esta ausência foi justificada pela organização como resultado de um atraso nas conversações deste tema com os estabelecimentos representados no certame, comprometendo-se à procura de uma melhor articulação futura no que toca a estes temas.

Por fim, de destacar um bom exemplo de como as práticas de responsabilidade ambiental se articulam na perfeição com uma vertente social, no ponto de recolha de rolhas plásticas e de caricas da campanha “AME o Afonso”, presente no stand da autarquia e que pretende recolher estes resíduos, por forma a “convertê-los” em tratamentos para o Afonso, uma criança do concelho que sofre de Atrofia Muscular Espinhal.