Madalena tem água de excelente qualidade

Madalena tem água de excelente qualidade

Gina: Para começar, parece-nos contraditório que, tendo a nossa água para consumo uma excelente
qualidade, a maioria dos madalenenses continuem a comprar água engarrafada, em vez de a consumir
diretamente da torneira e a um preço mais baixo. O que acha desta real contradição?
Marco Costa: Em primeiro lugar, acho que a água é daquelas missões e responsabilidades dos municípios
que nem sempre são bem valorizadas pelos munícipes. E porquê? Porque todos e, ainda bem, assumimos
atualmente que sempre foi assim, que sempre existiu água, que sempre ligámos a torneira e sempre
tivemos água ao nosso dispor. Infelizmente, nem sempre foi assim. De facto, a conquista de termos
totalmente o concelho da Madalena abastecido por água é uma realidade que tem menos de vinte anos.
Portanto, durante os últimos vinte anos, foi este o tempo que se conseguiu que toda a rede de
abastecimento de água cobrisse todo o concelho. Hoje, acho que só damos um pouco mais de valor a esse
bem essencial quando abrimos a torneira e ela não corre. Aí, todos nos lembramos que existe uma cadeia,
ou tentamos perceber que existe uma cadeia, que permite, ligada ao ciclo da água, que nós tenhamos isso
como bem essencial, fundamental à vida e a todos os hábitos que existem. Sobre a questão em concreto, é
e não é uma contradição. É uma contradição porque atualmente, ligado aos sistemas de controlo de
qualidade que somos obrigados por lei e que queremos e cumprimos, temos água de qualidade. Existe de
alguma forma um sentido de segurança das pessoas na sua saúde e no seu bem-estar que leva a pensar
que o que é comprado e é engarrafado é de sempre melhor qualidade do que aquilo que é realmente
nosso. Portanto, são mitos que existem e que se foram criando e que levam com que as pessoas se
coloquem nesse plano. Mas, eu acho que a vossa intervenção acaba por ajudar a desmistificar esse
princípio de que a água comprada nem sempre é melhor. Em termos microbiológicos, a nossa água cumpre
todos os requisitos que são exigidos por lei de acordo com as diretivas comunitárias, e com a entidade
regional, que nos obriga a apresentar o plano de controlo de qualidade da água, o chamado PCQA. Este
assenta em várias análises microbiológicas e físico-químicas e, portanto, de acordo com todos estes
critérios a nossa água cumpre os requisitos que a levam a conquistar o tal selo de qualidade que lhe foi
atribuído. No entanto, podemos colocar esta questão no plano organolético, aquilo a que chamamos
“sensação de conforto” ao beber a nossa água. Nem sempre toda a água tem o melhor sabor pelo qual nos
habituamos. Com efeito, isso tem a ver com a questão de hábitos de consumo porque na realidade,
estando nós numa ilha e sendo os lençóis freáticos afetados pelo mar que nos rodeia, há sempre
infiltrações do mar na Terra que, de acordo com a exploração, levam a que em certas alturas do ano
tenhamos uma água que, às vezes, apresenta mais salinidade, aquilo a que chamamos de água salobra.
Em conclusão, há uma contradição que tem a ver com a nossa avaliação particular da água, mas também
tem a ver com questões de marketing e com a ideia muitas vezes falsa de que tudo o que é importado é
melhor que aquilo que nós temos.

Gina: Que características determinam a qualidade da água para consumo e que testes são realizados
para a averiguar?
MC: Neste momento, não posso elencar os vários parâmetros das análises realizadas, mas posso daqui a
pouco vos fornecer. Existem vários critérios que têm a ver, essencialmente, com bactérias patogénicas, por
exemplo a cólis que é indicador de sujidade ou de resíduos intestinais de origem animal ou humana. Além
deste, temos os componentes físico-químicos que têm a ver com a questão de percentagem de sal, de
ferro, etc… Portanto, há uma série de parâmetros que determinam se a água é boa, caso os resultados
estejam dentro dos parâmetros.

Gina: Com que regularidade são feitas as análises à água para consumo? Quem recolhe as amostras e
quem é que faz o tratamento de dados?
MC: Nós temos o plano de controlo de regularidade da água, que é submetido de forma aleatória pelo
concelho mensalmente. Esse plano é submetido à ERSARA (Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e
Resíduos dos Açores), a entidade reguladora. Ela aprova e nós, quando temos o nosso plano aprovado,
subvencionamos o trabalho. Por exemplo, a partir da altura em que temos o plano aprovado, consultamos
laboratórios credenciados, o Agroleico ou o INOVA, que são empresas especializadas fora da ilha. Elas, por
sua vez, têm pessoas com formação para recolher as amostras, algumas pessoas são da ilha, outras vêm do
exterior, mas eles acabam por ter cá quadros que fazem, de forma aleatória, a recolha de amostra e depois
nós recebemos o relatório de acordo com as nossas seis zonas de abastecimento. Nós, por sistema, temos
toda a rede sujeita à adição de hipoclorito de sódio, a vulgarmente chamada lixívia, em determinadas
concentrações que leva à destruição da possível existência de bactérias patogénicas. Essa adição é
efetuada, não de acordo com os resultados das amostras, mas sim sempre que é introduzida água no
sistema. Ou seja, toda a água que é captada no concelho, antes de chegar à nossa torneira, leva adição de
hipoclorito, sendo essa adição feita nas zonas de captação, os chamados furos de captação, antes de entrar
nos reservatórios.

Gina: Quais os furos de água que abastecem o nosso concelho?
MC: Nós temos seis furos que depois dão origem a oito reservatórios. Os seis furos são: o da Miragaia, o do
Cabeço do Chão, o das Bicadas, o da Criação Velha, o da Candelária e o da Mirateca. Estas seis captações
cobrem todo o concelho e existem mais três captações, mas que são exclusivamente usadas para a
agricultura, portanto não estão a entrar na rede pública.

Gina: Até que ponto os resultados das análises são publicados e estão acessíveis ao público em geral?
MC: Por obrigação legal, mas também por nossa vontade, todos os resultados das análises são publicados
na página da internet da câmara. Portanto, qualquer munícipe, querendo, pode consultar e saber
exatamente quais são os resultados da sua zona de abastecimento. Além disso, a câmara é também
obrigada, em documento oficial, a ter conhecimento e a afixá-los.

Samuel: Que campanhas a Câmara realiza para incentivar o consumo da água da rede pública? E se não,
porquê?
MC: A melhor campanha que podemos fazer sobre o consumo de água é garantir que ela tem qualidade.
Por isso não fazemos campanhas a incentivar o consumo, mas admitimos que as pessoas, se têm confiança
na água que lhes é abastecida, vão optar por consumir a água que o concelho lhes põe ao dispor. O que
temos são campanhas na gestão deste recurso tão importante, que é a água. Digo isto porque o concelho
da Madalena, ao contrário dos outros dois concelhos da ilha e comparando com outras ilhas da região, não
tem nascentes naturais nem lagoas naturais, e portanto apresenta um custo muito elevado na obtenção da
água que põe ao dispor dos seus munícipes. Assim, o nosso incentivo não vai em consumir água, mas em
consumi-la com critério para que não existam desperdícios. Sabemos que o consumo tem aumentado,
porque temos cada vez mais economia, mais turismo, mais população em certas zonas do concelho e
porque os hábitos da vida moderna alteram-se constantemente. O valor de consumo per capita tem vindo
sempre a aumentar, sendo a nossa preocupação garantir recursos para manter as pessoas satisfeitas e não
na perspetiva de aumentar o consumo de água.

Samuel: Até que ponto o sabor que a água apresenta tem uma relação direta com a sua qualidade?
MC: É óbvio que numa ilha temos sempre certos fatores que são diferentes dos que se verificam no
continente. A característica que mais é relatada é se a água é ou não salobra. Como a captação é
subterrânea temos sempre um risco elevado de ter infiltrações, devido à natureza geológica do concelho
da Madalena. A avaliação é sempre feita em função da quantidade de sal que a água apresenta. Este fator
influencia o consumo, mas não o podemos controlar, a não ser que deixássemos algumas captações de
parte e optássemos por novas. No entanto, estas novas captações teriam um período de validade porque
dependem dos lençóis subterrâneos e do consumo. Em suma, o sabor da água não apresenta uma ligação
direta com a qualidade da água.

Samuel: Considera que a nossa água para consumo tem mais qualidade que a dos restantes concelhos da
ilha do Pico?
MC: Considero que tem características diferentes e que todas elas têm que ser avaliadas no seu contexto.
Estamos num patamar de controlo elevado, e isso tem de ficar claro, mas não considero que a nossa água
seja melhor pelas questões que já referi. Somos um concelho que tem toda a sua água para consumo
fornecida através de captações subterrâneas que, ao serem subterrâneas, estão sujeitas a todas as
condicionantes que já referi, portanto ela é boa, mas no nosso contexto.

Samuel: O que acha da relação preço/qualidade da água para consumo?
MC: A nossa vontade era colocar a água cada vez mais barata ao dispor dos nossos munícipes. No entanto,
isso não é possível porque não temos nascentes e porque temos um investimento muito elevado para a
captação, devido ao elevado dispêndio de energia. Obrigado por lei, o sistema tem que ser
autosustentável, não devendo dar lucro nem prejuízo. Quanto maior o consumo, mais alto é o valor
atribuído aos escalões estabelecidos. Os munícipes devem ter a consciência de que este é um bem que
deve ser gerido. Também terão melhores condições de pagamento se gerirem melhor o consumo de água.
Samuel: Atendendo à excelente qualidade da nossa água, não acha que a câmara deveria em parceria
com a nossa escola realizar uma campanha que sensibilizasse a comunidade escolar a ingerir água
diretamente da torneira em vez de a comprar engarrafada, uma vez que assim poderíamos reduzir o
número de garrafas de plástico gastas?
MC: Qualquer campanha da área ambiental deve começar pelas escolas. É aí que se consegue, a longo
prazo, passar as melhores ideias e tornar a comunidade mais consciente. Para qualquer parceria com as
escolas, a câmara estará sempre disponível, aliás já tem feito alguns trabalhos e há-de continuar a fazer,
seja na água, seja nos resíduos, seja noutras áreas da educação ambiental, pois este é um recurso que não
é inesgotável e que está cada vez mais presente na qualidade de vida que queremos ter e portanto a
escola tem que ser um parceiro para educar a sociedade.
Alunos envolvidos: Gina Arruda; Henrique Silva e Samuel Goulart
Professor responsável: Ana Paula Silva
Escola Cardeal Costa Nunes

Alunos envolvidos no projeto:

Data: 16/06/17

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