Caravelas-portuguesas: um aviso ambiental?

No mês de Maio foi relatado um aumento da presenças de "caravelas-portuguesas" em várias praias de Portugal. Num espaço de 5 dias foi reportado que inúmeros animais desta espécies arrojaram na costa em diferentes pontos do país. Especialistas alertam para a relação destes episódios com aumento da temperatura dos oceanos.


O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) alertou para a grande quantidade da espécie Physalia physalis, também conhecida por caravela-portuguesa, nos Arquipélagos da Madeira e dos Açores (ilhas do Faial, Terceira e S. Miguel), na zona balnear do Algarve e na Costa da Caparica. Nos Açores (ilha de S. Miguel) também estão a ser registados avistamentos de águas-vivas (Pelagia noctiluca) e em Portugal continental registam-se muitos veleiros (Velella velella). Entre as espécies que ocorrem em Portugal, a caravela-portuguesa é a que exige mais cuidado. Influenciada por ventos e correntes de superfície, é frequentemente avistada nesta época do ano. A investigadora Antonina dos Santos, e coordenadora do programa GelaVista que monitoriza estes organismos gelatinosos em toda a costa portuguesa, refere que estas espécies, estão dar à costa nas ilhas dos Açores “contra a sua vontade” e “devido a correntes fortes”. 

João Gonçalves também declara que, de acordo com os seus estudos, as praias a sul com vento são as que estão mais vulneráveis ao aparecimento da caravela portuguesa devido ao aumento da temperatura das águas do oceano e aos ventos fortes.

Aquecimento das águas do oceano

Em 2019, a temperatura média nos oceanos cresceu 0,075 graus face à média de 1981-2010. Em algumas praias do Algarve, por exemplo, a temperatura da água do mar atingiu os 26 graus. Segundo os dados do IPMA, a temperatura média da água do mar na costa portuguesa aumentou este Verão para níveis nunca antes registados. Aparentemente parece ser uma boa notícia para os banhistas, mas no que toca à segurança e ao meio ambiente a realidade é diferente.

O aumento da temperatura dos oceanos é uma das razões apontadas para o aumento deste fenómeno que regista maior incidência nos últimos tempos. A conjugação destes fatores climáticos com o diferencial de maré favorece a chegada e o arrojamento destes animais à costa portuguesa de forma mais frequente.

Caravela-portuguesa

Praia da Ribeira Quente – Açores 20 de maio 2020 // Fotografia João Furtado

As caravelas-portuguesas são extremamente resistentes e adaptáveis e surgem frequentemente na Madeira e Açores, sendo pouco comum o seu aparecimento na costa continental. A caravela-portuguesa vive na superfície do mar e é identificada pelo seu flutuador cilíndrico, azul arroxeado, cheio de gás. É um organismo animal do grupo dos cnidários (que inclui as alforrecas) – uma colónia constituída por centenas ou milhares de criaturas geneticamente semelhantes. Com o nome científico Physalia physalis, é azul-arroxeado, transparente, com tentáculos de dez metros, em média (alguns chegam aos 30 metros). O veneno da caravela-portuguesa é parecido com o da aranha viúva-negra, que provoca dores muito fortes, queimaduras que podem ser até de terceiro grau ou reações alérgicas graves acompanhadas de náuseas. As queimaduras provocadas pelo contacto com os tentáculos provocam cicatrizes (talvez permanentes).

O controlo desta situação é difícil podendo contar com os seus predadores naturais que também devem ser preservados de forma ativa. Um deles é o peixe-lua, um dos ex libris do Oceanário de Lisboa. Outro é a tartaruga-marinha-comum, cuja pele demasiado grossa a torna imune às picadas. Finalmente, uma espécie de lesma-do-mar e outra de caracol-do-mar especializaram-se em alimentar-se da caravela-portuguesa. 

O combate ao aquecimento global deve ser prioritário, de forma a travar todas as consequências e tentar inverter a situação.

A monitorização tem de ser igualmente um vetor importante, tal como o programa GelAvista, que tem vindo a envolver os cidadãos na ciência para a necessária recolha de informação sobre a ocorrência ou inexistência de organismos de aspeto gelatinoso na costa Portuguesa. Recebendo informação sobre a sua presença, alertando a população, e transmitindo informação científica sobre as espécies, bem como os cuidados a ter em caso de contacto direto com a pele. 

Qualquer ocorrência desta ou de outras espécies de organismos gelatinosos poderá ser comunicada ao programa GelAvista. O Gelavista pretende continuar a contar com a colaboração da população para estudar e compreender a dinâmica dos organismos gelatinosos a larga escala em território nacional. para que, no futuro, seja possível a previsão destas ocorrências pelo  IPMA ou pela Autoridade Marítima, pelo fornecimento, por parte da população, dos dados dos avistamentos.

Bibliografia: 

https://www.jn.pt/local/noticias/setubal/almada/surgimento-de-caravelas-portuguesas-coloca-costa-da-caparica-em-alerta-10884944.html

https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2019-05-11-tudo-o-que-precisa-de-saber-sobre-as-caravelas-portuguesas-avistadas-na-costa-da-caparica/

https://www.natgeo.pt/animais/2018/06/caravela-portuguesa-saiba-porque-e-tao-temida

https://rr.sapo.pt/2020/05/08/pais/acores-com-quantidades-significativas-da-presenca-de-caravelas-portuguesas/noticia/192225/

https://www.dnoticias.pt/madeira/ipma-alerta-para-grande-quantidade-de-caravelas-portuguesas-na-madeira-e-acores-EN6249372

https://www.sapo.pt/noticias/atualidade/aumento-de-temperatura-da-agua-leva-caravelas_5b01238d63bdc0126b3e0027

http://gelavista.ipma.pt/

https://m.radiocomercial.iol.pt/noticias/63324/aumento-da-temperatura-da-agua-do-mar-esta-a-ter-consequencias-na-costa-portuguesa

 

Alunos envolvidos no projeto: Sofia Lopes

Escola: Escola EB 2,3 André Soares

Data: 26.06.2020

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