“Capitães da Areia”

Professor de Educação Física há 14 anos, David Barbosa é um praticante fervoroso de variadas modalidades desportivas, desde o surf à natação. Apesar do nervosismo inicial, à medida que explicava o seu recém-criado projeto, o entusiasmo crescia, como seria de esperar de alguém que lidera uma iniciativa da qual se orgulha - os “Capitães da Areia” - e que surgiu de forma “espontânea”, uma vez que sempre realizou limpezas de praia a nível individual.


Efetivamente, foi numa dessas pequenas limpezas, num dia de praia com a família, que David decidiu agir relativamente à apatia e despreocupação das pessoas, na medida em que estas pareciam ignorar o “lixo que se encontrava a dez centímetros das suas toalhas”, sentindo-se o mesmo como um “extraterrestre” enquanto apanhava resíduos variados. Ademais, embora elogiado pela sua dedicação à recolha de resíduos, sentia que o apoio prático das pessoas era escasso, vis “recebia muitos elogios, mas tive poucas pessoas a juntar-se a mim”.

Constrangido e, sobretudo, inconformado com o paradigma observado, o professor decidiu criar um grupo de Facebook, inicialmente privado, que se tornou público com a engrandecida popularidade. Este é um grupo “autossustentável”, já que se alimenta, em grande parte, de fotografias de resíduos recolhidos pelos membros em vários pontos do país e também de locais que limparam, incluindo praias, jardins ou parques, sob o “lema”: “não é deixar igual, é deixar ainda mais limpo”. Com efeito, é essencial que os indivíduos se responsabilizem progressivamente pelo estado do espaço em que se encontram, sendo esta “uma atitude que temos de ter no nosso dia a dia, não só nas férias, não só na praia”.

Embora ciente do poder das redes sociais relativamente à divulgação de campanhas e movimentos, foi com surpresa que David acompanhou o crescimento da página e a adesão de amigos, colegas, familiares e desconhecidos interessados no projeto, “todos os dias, no Algarve, nos Açores…”.

Evidenciando a íntima ligação dos “Capitães da Areia” com o desporto, o entrevistado revela que o título do projeto nasceu naturalmente, dado que o “capitão” é, por excelência, aquele que dá o exemplo e demonstra iniciativa. Juntando à iniciativa-própria, as férias regulares na praia do Marcelino, a maior familiaridade com os restantes frequentadores e infraestruturas locais, bem como o aumento do número de ”Capitães” no grupo de Facebook, começou a ser pensada a organização de uma Mega Limpeza de Praia, na praia acima referida. Com o apoio da Junta de Freguesia da Costa de Caparica e da Associação de Surf da Costa de Caparica, entre outros patrocinadores, no passado dia 1 de setembro, 120 participantes, com idades entre os 6 e os 79 anos, encheram, após uma hora e meia, 20 sacos de 150 litros com resíduos diversos, desde beatas a um extintor (Fig.1).

 

Figura 1 – Um dos sacos de 150 kg com resíduos da Mega Limpeza de Praia (cortesia de David Barbosa)

 

O sucesso desta atividade foi tal que, no sentido de sensibilizar uma audiência progressivamente maior, David avança já com a expectativa da repetição da Mega Limpeza de Praia, no próximo ano, desta vez com um alcance maior.

No entanto, as limpezas de praia não são a única atividade dos “Capitães da Areia”, sublinhando David Barbosa a importância de “transmitir estratégias”, nomeadamente fora da época balnear, destacando-se a redução do consumo de plástico e a colocação das beatas dos cigarros nos cinzeiros. Reforça igualmente que, apesar de a praia constituir o enfoque do projeto, seria benéfico o desenvolvimento de movimentos, como os “Capitães do Campo” ou mesmo os “Capitães do Rio”. Uma vez mais, é reforçada a ideia de que a preservação pelo ambiente é “uma atividade exequível em qualquer lugar”. Tendo em vista este objetivo, acima referido, foram oferecidos aos participantes, no final da Mega Limpeza de Praia, uma garrafa reutilizável e um saco do pão, para além de outros “brindes sustentáveis”. Afinal, como explica, mudar comportamentos “é uma questão de descobrir alternativas”.

No decorrer da entrevista, a abundância de beatas de cigarros nas praias portuguesas é uma temática recorrente e, por esse motivo, o professor caracteriza- -a como a “sua maior luta”, ao mesmo tempo que relata uma outra “missão” efetuada na Nova Praia, na Costa de Caparica, na qual, numa hora, apanhou, com a ajuda de alunos, 640 beatas. Esta experiência parece fortalecer a sua vontade de alertar para a necessidade da conscienlização social, confidenciando que muitas das pessoas com as quais se cruza nas limpezas de praia ainda acreditam que “o lixo desaparece e, consequentemente, as beatas podem ser deitadas para o chão”. Esta atitude incomoda-o especialmente, visto que “se temos uma inundação em casa, é muito mais eficaz fechar a torneira e cortar a circulação da água do que limpar continuadamente o chão molhado”.

Aliás, a assunção comum de que as denominadas “ilhas de lixo” ocorrem somente em “locais muito distantes” e que em nada influenciam ou são provocadas pelos comportamentos individuais dos portugueses, contribui para a indiferença dos indivíduos, principalmente das gerações mais velhas. “Algumas rotinas são difíceis de quebrar” e, por essa razão, David confia nos jovens como sendo capazes de mudar mentalidades. De facto, como teve a oportunidade de comprovar, na praia, são estes que muitas vezes, alertam os pais para a necessidade de alterar determinadas atitudes prejudiciais ao ambiente.

A preocupação com a sustentabilidade ambiental motiva este pai de dois filhos, que acredita que essa mesma maior sensibilidade para o meio em redor dos “mais novos” garantirá, decerto, uma relação do Homem com o ambiente mais sustentável para ambas as partes, num futuro, que se espera próximo, e onde o termo descartável não terá lugar, porque a afirmação “deitar o lixo fora” perdeu o sentido. O que é o “fora”, realmente?.

Apesar de alguns comentários desmoralizantes que ouve, relacionados com a insignificância da limpeza de uma praia, sendo já a poluição das mesmas um problema global, o professor admite que “alguns sentem-se derrotados quando, no dia posterior ao de uma limpeza de uma praia, se deparam com ainda mais resíduos, mas eu sinto ainda mais motivação”.

Quando questionado acerca de possíveis incentivos para a criação de outros projetos semelhantes, a diminuição da carga burocrática é o primeiro fator apontado, declarando David Barbosa que “é necessário pedir uma licença para fazer algo que deveria ser considerado a normalidade”, não obstante o reconhecimento de que são essenciais a gestão e organização quando estão envolvidos dezenas ou centenas de pessoas.

Contudo, David assegura veementemente querer “fazer parte da solução e não do problema”, revelando-se fundamental a cooperação entre comunidades com objetivos semelhantes aos “Capitães da Areia”, através da partilha mútua de posts ou da celebração conjunta do World Cleanup Day” com uma outra limpeza da praia do Marcelino, no passado dia 15 de setembro. Todavia, garante que “ainda somos poucos. No dia em que formos muitos, Portugal estará, decerto, mais limpo”.

Agradece-se ao Professor David Barbosa pela sua disponibilidade em responder às questões que lhe foram colocadas para a realização deste artigo e pela partilha de imagens.

 

Alunos envolvidos no projeto: Maria Carreira

Data: 04.01.2019

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