“AQUÍFEROS do ALGARVE em ALERTA”

É muito importante preservarmos os aquíferos da nossa região, consumindo a água de forma sustentável, evitando a infiltração de água salgada e a sua contaminação antrópica. Devemos estar conscientes que a água assume um papel fundamental no desenvolvimento da nossa região, em atividades de primordial importância como a agricultura e o turismo.Ao divulgarmos esta entrevista pretendemos sensibilizar toda a comunidade, em particular a comunidade escolar para a importância de preservarmos as nossas reservas de água subterrânea, poupando a água que consumimos bem como evitando a sua contaminação. Entrevista à Dr.ª Edite Reis(licenciada em Engenharia Geológica pela Universidade de Aveiro, com mestrado em Geologia Económica e Aplicada pela Faculdade de Ciências de Lisboa) -Técnica Superior da Agência Portuguesa do Ambiente(APA) que exerce funções na Administração da Região Hidrográfica do Algarve (ARH). (janeiro de 2018)


  1. Qual o tipo principal de rochas que constituem o suporte dos sistemas aquíferos no Algarve?

(Edite Reis) Os aquíferos são uma formação rochosa que contém água onde a mesma pode ser retirada para fins económicos. No Algarve as principais formações são carbonatadas (calcários). Existem outros aquíferos designados por “porosos” principalmente constituídos por areias e arenitos. Existem ainda aquíferos de xisto, mas são menos importantes porque são pouco permeáveis.

 

  1. Quais destes aquíferos têm águas de melhor qualidade?

(Edite Reis) A água tem melhor qualidade nos aquíferos presentes no interior do Algarve, porque há menos infiltração de água marinha.

 

  1. E quais destes aquíferos estão mais vulneráveis (riscos de contaminações/poluição, sobre-exploração)?

(Edite Reis) Os aquíferos mais afetados pela infiltração salina são os do litoral devido a aproximação ao mar. Neste momento o aquífero mais afetado é o da Campina de Faro no subsistema de Vale do Lobo, pois a água que é retirada é superior aquela que entra, permitindo assim uma maior intrusão salina.

 

  1. Existe a probabilidade deste problema se prolongar nos outros aquíferos?

(Edite Reis). Existe sim, pois além da contaminação marinha, temos a contaminação por nitratos (proveniente das explorações agrícolas). Neste momento já está sobre vigilância o aquífero de Querença-Silves, pois começa a apresentar valores elevados de nitratos.

 

  1. Há alguma maneira de prevenir as contaminações dos aquíferos por água salgada?

(Edite Reis) Há varias maneiras, sendo a principal, a proibição de mais extrações através de furos nos aquíferos que estão em risco.

 

  1. Com que frequência acontecem as contaminações das águas subterrâneas?

(Edite Reis) A frequência é variável, pois temos intrusão salina sempre que a água doce presente no aquífero diminui.

 

  1. Que medidas podemos tomar para conseguir diminuir o avanço das águas salgadas? De que forma as pessoas podem ajudar?

(Edite Reis) Podemos prevenir o avanço das águas salgadas diminuindo o consumo de água doce, como por exemplo fechar a torneira enquanto escovamos os dentes.

 

  1. Sabemos que o abastecimento de água às populações do Algarve é principalmente feito com recurso às albufeiras, mas será que podemos utilizar a água dos aquíferos, como uma reserva estratégica, quando existe falta de água nas albufeiras?

(Edite Reis) A agua proveniente dos aquíferos pode ser usada como uma fonte secundária de abastecimento sempre que houver uma falha num abastecimento proveniente da albufeira.

 

  1. Que impactes é que as contaminações das águas subterrâneas podem ter na sociedade?

(Edite Reis) A contaminação destas águas pode ter várias consequências para a sociedade, principalmente a nível de saúde. Os nitratos podem desenvolver situações cancerígenas. Através da contaminação dos esgotos essas águas podem conter vírus e bactérias prejudiciais para a saúde.

 

  1. O sistema aquífero da Campina de Faro, abrange os concelhos de Faro, Loulé e Olhão. Este aquífero está em regime de equilíbrio ou não? A falta de chuva está a afetá-lo?

(Edite Reis) Sim, está em equilíbrio e neste momento apesar da falta de chuva a situação não é preocupante, pois este aquífero estava muito cheio.

 

  1. As pessoas têm conhecimento e encontram-se informadas sobre este assunto?

(Edite Reis) A maior parte das pessoas não está ciente deste problema, pois muitas delas nem sabem o que é um aquífero.

 

  1. A poluição marinha pode prejudicar os aquíferos costeiros?

(Edite Reis) Não diretamente, pois a água salgada não é captada, por isso, mesmo que esteja poluída não põe em risco o aquífero.

 

  1. Como está a região de Vale do Lobo, há indícios de sobre-exploração? Desde que ano? Pode haver intrusão marinha (de água salgada)?

(Edite Reis) Sim, esta região está sobre sobre-exploração, pois a água que é retirada é superior aquela que entra. Devido a isso o nível da água do aquífero é inferior ao nível da água do mar o que permite a intrusão salina no mesmo. Não há uma data exata para o início desta contaminação, pois sendo uma zona de risco, sempre esteve sob vigilância, mas desde há 2 ou 3 anos que os níveis de cloretos começaram a subir.

 

  1. Existem outros aquíferos do Algarve em risco de intrusão marinha?

(Edite Reis) Todos os aquíferos do litoral correm esse risco.

 

  1. A falta de ordenamento do litoral pode contribuir para aumentar a intrusão marinha nos aquíferos?

(Edite Reis)Sim, pode devido ao consumo excessivo de água por parte da população, mas no algarve não é relevante devido à proibição de novos furos e toda a água consumida através da rede pública é distribuída pelas águas do algarve e captada fora do litoral.

 

  1. Que outras causas naturais, para além da intrusão marinha poderão contribuir para a degradação da qualidade dos aquíferos?

(Edite Reis) Outra causa natural de degradação dos aquíferos é a disseminação de sal-gema. Sempre que fazemos um furo para recolher água e atravessamos uma disseminação, a água que recolhemos fica salgada.

 

Alunos envolvidos no projeto: Alexandre Guerreiro; Ana Filipa Machado; Leandro Viegas; Rodrigo Teixeira

Escola: Agrupamento de escolas Pinheiro e Rosa

Data: 16.05.2018

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