Antes da Bifana…

Num tempo em que tanto se fala de sustentabilidade ambiental, percebamos quais os impactos das explorações pecuárias, no caso uma suinicultura, no nosso ambiente e nas nossas vidas. Será necessário escolher entre a homeostasia ecológica e o consumo de carne? Entre a viabilidade económica e a sanidade do meio?


Foto: Interior de um pavilhão

Chego ao fim da manhã, o nevoeiro adensa a sensação de tranquilidade que emoldura esta zona do Parque Natural de Sintra-Cascais. Se não soubesse da sua existência, diria que o frio tinha escondido a suinicultura pertencente ao grupo Euroeste S.A., em Casal Pianos-Magoito. É um edifício grande, estruturado para abrigar animais, leitões, que mais tarde estarão à nossa mesa, farão parte de nós. Esta opera em regime de exploração intensiva, em que os animais “residem” em pavilhões compridos, brancos, todos semelhantes, onde coabitam em espaços onde se pretende reine a assepsia para o controlo de doenças, não tendo, contudo, a sorte dos seus congéneres açorianos, por exemplo, de regime extensivo, que podem movimentar-se por grandes áreas a céu aberto.

Atentemos às palavras da Engª. Ambiental Maria Antónia Figueiredo (exerce funções de acessoria ambiental nesta suinicultura) que afortunadamente entrevistámos: “Os animais fechados em estruturas, ou seja, a pecuária intensiva, é muito mais poluente que a pecuária extensiva, em que os animais são criados ao ar livre. Quando os animais são criados ao ar livre, o estrume (fezes e urina) é deixado no solo. Por se tratar de matéria orgânica, este estrume melhora as características do solo contribuindo para o desenvolvimento das plantas. No caso dos animais criados em pavilhões, os efluentes produzidos, constituídos por fezes, urina e águas de lavagem, são encaminhados para estruturas de retenção (são exemplo, as lagoas). Estas estruturas de retenção têm de ser continuamente limpas, pois estão continuamente a receber efluentes pecuários. Estes efluentes são espalhados nos terrenos agrícolas. Contudo, o seu espalhamento é normalmente mais concentrado do que quando os animais estão ao ar livre e, por isso, o risco de poluição do solo e da água é maior.” É fundamental, ainda, perceber que também as emissões de CO2 são superlativas neste tipo de pecuária intensiva devido à alimentação e retenção dos efluentes pecuários. Sublinha a Engª. Maria Antónia: “A alimentação com rações causa mais emissões que a alimentação em pastagens. E o fato de termos o armazenamento dos efluentes pecuários durante algum tempo nas estruturas de retenção, também contribui para produzir mais emissões de carbono. Quando o animal está em pastoreio, as emissões de carbono a partir das fezes é menor porque a matéria orgânica é incorporada mais rapidamente no solo.”

Foto: Lagoa de retenção de efluentes pecuários

Também aqui encontramos provas da simbiose que deve existir entre a proteção destes animais (os porcos) e a mesma que é devida ao ambiente. Soubemos que em muitas suiniculturas só é possível entrar nos pavilhões com fatos e botas esterilizados; além disso, a entrada é vedada a pessoas que não trabalhem nas instalações ou que tenham estado numa outra exploração pecuária há menos de 15 dias. Asseguram-se as condições de saúde e bem-estar dos suínos! E do ambiente? Como? Trazemos a Engª. Maria Antónia para que melhor entendamos: “A promoção da saúde dos animais contribui para um ambiente melhor porque produzimos menos resíduos (carcaças de animais, medicamentos, etc.) e consumimos menos recursos. Sempre que um animal morre por doença há um desperdício dos recursos utilizados até aquela data para o desenvolvimento do animal (água, ração, medicamentos, etc.). Hoje em dia, com a legislação ambiental que existe e com a fiscalização e inspeção ambiental por parte de diversos organismos do Estado, é impossível não cumprir o mínimo em matéria de ambiente. Uma empresa que não cumpra a legislação ambiental é, em pouco tempo, alvo de coimas e multas ou mesmo de encerramento por parte das autoridades licenciadoras. A tendência é dos custos com o ambiente, nomeadamente com a contratação de técnicos, com a implementação de medidas de proteção do ambiente, entre outros, serem internalizados no valor final do produto. Ou seja, quando decompomos o valor final de 1kg de carne, uma parte é para pagar a ração consumida pelo animal durante toda a sua vida, outra parte a água consumida, outra parte os trabalhadores afetos ao tratamento do animal ao longo da sua vida, outra o investimento do proprietário, e uma outra parte será para pagar os custos ambientais com o tratamento dos resíduos produzidos pelo animal durante a sua vida, com o técnico de ambiente, e outras medidas ambientais que tenham sido implementadas.”

Todavia, o aumento de terrenos ocupados para criar estas suculentas, ternurentas e rechonchudas criaturas, não estará a contribuir para a desertificação, a devastação dos habitats naturais e, mesmo, da vida selvagem? Não queremos acreditar que engordar estas personagens que abrilhantam as nossas histórias infantis, implique qualquer tipo de ataques ao ambiente. Mas… a realidade que a Engª. Maria Antónia nos propõe deixa-nos a refletir antes de comermos a próxima bifana: “A agricultura e a pecuária, em especial quando praticadas de forma intensiva, contribuem para a perda de floresta, para a perda de habitats naturais e para o empobrecimento da diversidade de animais e plantas.”

Saber que o meio circundante nos é mais importante do que aquilo que comemos, do que saboreamos. Será isto uma verdade? Como viver em sintonia com o ambiente, pondo de parte os nossos prazeres, as nossas necessidades? O que fazer com a falta da fatia de entremeada grelhada e estaladiça que escorre apaladada gordura pelos cantos dos nossos lábios? Como abdicar destas “iguarias”? Regressemos às palavras sensatas de Maria Antónia: “Quando o ambiente está de costas voltadas para a produção é difícil que o resultado seja bom para todas as partes. Há que consciencializar os produtores de que o ambiente é uma mais-valia para as suas explorações. Seria possível produzir porcos sem água? Seria possível produzir porcos num deserto? Não. Quanto melhores culturas de cereais tiver o explorador na sua vizinhança, menos paga em combustível para ir buscar a ração dos animais. E, para haver boas culturas, é necessário um solo produtivo, rico em nutrientes e matéria orgânica.” Acrescenta ainda: “Julgo que tem de haver um meio-termo. A sociedade em que vivemos não está preparada para que nos tornemos, de um dia para o outro, vegetarianos. Por outro lado, a consciência ambiental é crescente e são cada vez mais as famílias a adotar um regime de alimentação com mais refeições vegetarianas. Considero que esta tendência manter-se-á e no futuro teremos um maior equilíbrio no consumo de carne e de proteínas de origem animal. Tenho a convicção de que é possível ter uma pecuária ambientalmente sustentável e que a proteção dos ecossistemas é compatível com a produção pecuária. O Estado e a sociedade têm aqui um papel importante e são forças de pressão para o bom desempenho das empresas em matéria de ambiente. O Estado através das leis e da fiscalização. A sociedade através da compra consciente e do dever de reclamar e alertar as Autoridades caso identifique más práticas ambientais que levem a danos no ambiente.”

Foto: Vista sobre a suinicultura pertencente ao grupo Euroeste S.A.

Em suma, tenhamos a coragem e a honestidade intelectuais de perceber a necessidade da existência destas explorações pecuárias e simultaneamente o sonho de que elas se integrem num ambiente do qual os próprios porcos possam, “felizes”, usufruir.

Reportagem e entrevista realizadas por Lucas Barreira (9ºE)

 

 

Alunos envolvidos no projeto: Lucas Barreira

Escola: Escola Básica Alto dos Moinhos

Data: 04.02.2019

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