Ameaça invisível e de consequências brutais

A produção mundial de plásticos não para de crescer e, de ano para ano, a quantidade de produtos que incluem plástico na sua composição atinge valores exorbinantes. No entanto, apesar das vantagens inerentes a este material serem indiscutíveis e conhecidas pela generalidade dos consumidores, a biodiversidade e o funcionamento de variadíssimos ecossistemas têm sido drásticamente afetados devido à decomposição do plástico.


A produção mundial de plásticos e de produtos que incluem polímeros como polietileno (PE), polipropileno (PP), policloreto de vinilo (PVC), poliuretano (PUR), poliestireno (PS) e poliamida (PA) na sua composição tem vindo a aumentar desde 1950, devido à sua versatilidade, propriedades químicas, eficiência, durabilidade e relação custo/benefício.

Por outro lado, também a produção de lixo tem vindo a aumentar significativamente, devido ao crescimento populacional e às consequências evidentes das “sociedades de consumo” que se têm vindo a afirmar desde o século passado. Em 2010, a produção total de lixo na União Europeia rondou as 2,5 biliões de toneladas, das quais apenas 36% foram encaminhas para centros de reciclagem.

Em menos de um século de existência, “os detritos de plástico já representam cerca de 60 a 80% do lixo marinho (dependendo da localização)”, estimando-se que “cerca de 10% dos plásticos produzidos terminem nos oceanos e mares”, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente. Estas conclusões são extremamente preocupantes e relevantes, já que a partir do momento em que ficam expostos às condições ambientais, os plásticos iniciam um processo de degradação extremamente lento e durável, culminando na formação de nano partículas designadas “microplásticos”.

Durante os últimos sessenta anos, a produção de plástico tem vindo a ser reconhecida como uma séria ameaça aos ambientes marinhos, por exemplo. Um elevado número de espécies é gravemente afetada pela contaminação de plástico, sofrendo consequências evidentes ao nível tecidular e celular (tal como foi concluído por Nadia von MoosPatricia Burkhardt-Holm, e Angela Köhler, membros do Departamento das Ciências do ambiente da Universidade de Basileia, num estudo recente). Para além da ingestão e digestão de macroplásticos por seres marinhos vertebrados, polímeros tóxicos têm vindo a introduzir-se nas cadeias alimentares devido à acumulação de micropásticos levada a cabo por organismos planctónicos e invertebrados. Entre algumas das consequências que daí advêm destacam-se: a perda de valores nutricionais, os danos físicos, a exposição a compostos tóxicos e “estranhos” para o organismo, entre muitos outros. Em suma, os danos ecotoxicológicos são já inquestionáveis, apesar de o impacto dos microplásticos em ambientes marinhos ainda não ser, de todo, completamente esclarecedor e entendido.

Apesar de a abordagem a este tema não ter sido, até agora, satisfatória e completa dadas as dificuldades e obstáculos inerentes ao estudo dos impactos e consequências diretas destas partículas microscópicas em organismos vivos, é evidente que a poluição originada pela exposição de micro e macroplásticos no ambiente poderá ser suficientemente catastrófica para alterar o funcionamento e os relacionamentos estáveis e equilibrados estabelecidos nas cadeias alimentares. Como tal, é extremamente necessário apoiar, por um lado, iniciativas inovadoras e investigações pormenorizadas sobre a influência dos microplásticos nos ecossistemas e, por outro, a criação de materiais biodegradáveis que substituam o plástico e que sejam igualmente económica e utilitariamente vantajosos.

Para além do meio aquático, também a atmosfera retém uma parte (ainda que consideravelmente reduzida) de microplásticos. Devido às suas reduzidas dimensões, espera-se que estes sejam inalados pelo Homem e restantes organismos vivos, podendo causar lesões e inflamações ao nível do sistema respiratório. Além disto, face à ingestão de seres que tenham ingerido ou inalado este tipo de nano materiais, é evidente que todos os organismos envolvidos na mesma cadeia alimentar podem ser afetados.

“SOUP: Bird’s Nest. Ingredients: discarded fishing lines that have formed nest-like balls due to tidal and oceanic movement. Additives: other debris collected in its path.” – foto de Mandy Barker

 

 

 

 

Alunos envolvidos no projeto: Lízia Branco

Data: 29.03.2018

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